Chove lá
fora.
Bate no telhado,
venta na clarabóia... Molha lá dentro. No peito húmido e frio que
treme. Treme de raiva, impotência, medo e solidão. Abafa a vida que
o percorre, assim como ele abafa os sons primitivos de dor que se
escapam ocasionalmente no desvario da loucura. Punhos cerrados
atingem a cama e agarram o cabelo comprido. Está escuro, um breu
palpável que pressiona e constrange ainda mais. Tão negro como o
coração que lhe bate no peito.
Parou. O corpo ainda treme ofegante, de joelhos e testa pousados no
colchão. Mas continua a chover...
Uma batida mais forte na clarabóia capta a sua visão desfocada que
nada mais vê do que as grossas gotas caídas do negro céu a escorrer
pelo vidro, destruídas imediatamente e substituídas por outras que
caem continuamente. Um retrato da efemeridade que se preparava para
lhe consumir de novo o espírito não fosse uma nova batida invisível
no vidro baço. Permaneceu atento alheando-se aos pensamentos que o
tomavam, de olhos postos na réstia de luz lunar que conseguia
atravessar o céu coberto e penetrar naquele sótão.
Desta vez viu a pequena pedra redonda que embateu e ressaltou no
vidro antes de ser varrida pela corrente de água.
Levantando-se quase de um salto, pegou na habitual cadeira e subiu,
abrindo a clarabóia e ignorando a chuva que o começou a fustigar. O
olhar franzido não precisou procurar muito para a ver. Sentada na
borda de um prédio em frente, agitando levemente os pés no vazio,
estava uma jovem ensopada, com a roupa colada ao corpo, sem parecer
importar-se minimamente com isso. Os longos cabelos negros que
pingavam emolduravam um rosto bonito, que pelo que lhe era
permitido ver apesar da pesada chuva, ostentava um largo sorriso
divertido. Um sorriso que ele nunca esqueceria.