Escritor de Serviço

Blogue de mysoul :Pedaços de Alma, Escritor de Serviço

Fabian Perez  http://www.fabianperez.com/gallery29.html

O raio de luz que penetra pelo estore entreaberto é o holofote para a dança do fio de fumo ascendente. Dança sinistra e efémera, imprevisível e cativante que no escuro da divisão me rouba o olhar, os pensamentos. Puxo de novo mais daquele fumo para dentro de mim através do cigarro, cuja ponta se encandeia, fogosa e viva, parecendo revoltar-se momentaneamente para de novo esmorecer. O gosto que me fica na boca, passa na garganta e me inunda os pulmões parece provocar-me uma repulsa cada vez maior. Mas é derrota admitida após dolorosas lutas, nas quais a minha chama se findou primeiro. Morta, cinza cai no papel, parecendo incentivar-me a voltar ao trabalho.

Estranhamente hoje tenho uma vontade agitante de o fazer.


Será por o ter descoberto?


Suspiro o fumo.


Escrevo.

Monday 17 October 2011 17:40


Aponi - II

Blogue de mysoul :Pedaços de Alma, Aponi - II

Encontrava-se perdido na imensidão daqueles olhos verdes que espelhavam uma alma ainda mais bela que lhe era dada a conhecer, quando um sorriso espontâneo o distraiu e chamou à realidade.

Sorriu de volta. Nunca o tinha feito com tanta frequência.

Sentado na fria areia da margem do riacho, os últimos dias turbilhavam na sua cabeça. Risos, histórias, brincadeiras... partilha.

A sua atenção foi desviada por uma madeixa do cabelo negro que caiu na frente daquele olhar. Pensou. Hesitou. Por fim venceu o braço que teimava em não se mover, arrumando os fios soltos atrás da orelha dela. Ela pareceu ler os pensamentos que o percorreram e apreciar o gesto, respondendo com um sorriso diferente. Apanhou de forma casual a mão dele quando a baixou, mantendo-a nas suas.

Um calor no peito fê-lo voltar a exprimir alegria no rosto, enquanto voltava a encarar a água corrente. Sem largar o aperto quente da sua companhia, um novo diálogo, agora por palavras continuou a conversa que partilhavam animadamente.

Uma larga folha boiava levemente na corrente, girando com o auxílio do vento. O pensamento girava com ela.




Tuesday 29 March 2011 01:23


Aponi - I

Blogue de mysoul :Pedaços de Alma, Aponi - I

Chove lá fora.

Bate no telhado, venta na clarabóia... Molha lá dentro. No peito húmido e frio que treme. Treme de raiva, impotência, medo e solidão. Abafa a vida que o percorre, assim como ele abafa os sons primitivos de dor que se escapam ocasionalmente no desvario da loucura. Punhos cerrados atingem a cama e agarram o cabelo comprido. Está escuro, um breu palpável que pressiona e constrange ainda mais. Tão negro como o coração que lhe bate no peito.


Parou. O corpo ainda treme ofegante, de joelhos e testa pousados no colchão. Mas continua a chover...


Uma batida mais forte na clarabóia capta a sua visão desfocada que nada mais vê do que as grossas gotas caídas do negro céu a escorrer pelo vidro, destruídas imediatamente e substituídas por outras que caem continuamente. Um retrato da efemeridade que se preparava para lhe consumir de novo o espírito não fosse uma nova batida invisível no vidro baço. Permaneceu atento alheando-se aos pensamentos que o tomavam, de olhos postos na réstia de luz lunar que conseguia atravessar o céu coberto e penetrar naquele sótão.


Desta vez viu a pequena pedra redonda que embateu e ressaltou no vidro antes de ser varrida pela corrente de água.


Levantando-se quase de um salto, pegou na habitual cadeira e subiu, abrindo a clarabóia e ignorando a chuva que o começou a fustigar. O olhar franzido não precisou procurar muito para a ver. Sentada na borda de um prédio em frente, agitando levemente os pés no vazio, estava uma jovem ensopada, com a roupa colada ao corpo, sem parecer importar-se minimamente com isso. Os longos cabelos negros que pingavam emolduravam um rosto bonito, que pelo que lhe era permitido ver apesar da pesada chuva, ostentava um largo sorriso divertido. Um sorriso que ele nunca esqueceria.

Monday 14 February 2011 00:41


Outra noite.

 

Inércia...Interminável...Impaciência...

Rói e corrói, mói e destrói sem dó. Agarra, arrasta, arranha, rasga e tranca a esperança longe da luz... Que se afasta... Vai a que ilumina e aquece, evaporando as maleitas do espírito,  fica negra, a nefasta que se alastra, castra as vontades e chama as saudades...

Mais um dia, mais uma noite... Mais uma gota no mar gélido a atravessar....

Uma memória.

Um sorriso...

 

 Não... não é um mar... é um lago... um pequeno lago. Atravessado, ultrapassado hei-de o dourar... um céu limpo, um barco, um par de cisnes...

 

Mas agora é noite... fria.

Fecho os olhos.

Não durmo.


Friday 11 February 2011 01:27


Do passado...

Esqueci...

 

Doces calores, melodias tocantes, odores penetrantes,

Ofuscados por um olhar, obliterados por te amar.

Insignificantes como os sulcos da vida,

atenuados pelo bálsamo de um sorriso.

 

Vem.

 

 

 

 

Thursday 27 January 2011 00:09


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